quarta-feira, 4 de abril de 2018

Centro de Cidadania da Mulher de Parelheiros recebe o projeto Faz a Roda Grande Mulher

Atividade propõe empoderamento feminino a partir da experiência da mulher negra no Samba de Bumbo. Será realizada oficina de quadrinhas, exibição do documentário “Esse Bumbo é Meu”, bate-papo e apresentação do Samba de Bumbo de Dandara

Fotos: Ruy Reis



Nos dias 7 e 14 de abril, das 14h às 17h, no CCM Parelheiros, acontecem as atividades do “Faz a roda grande mulher”, projeto contemplado pelo edital Proac de promoção proteção das culturas negras, que circula pelos Centros de Cidadania da Mulher com o objetivo de compartilhar a história de empoderamento da mulher negra no samba de bumbo.
No primeiro, dia 7 (sábado), a atividade será apenas para mulheres, de todas as faixas etárias. Haverá exibição do curta-documentário “Esse Bumbo é Meu”, seguida de bate-papo sobre o papel da mulher na manifestação cultural e a apropriação dos instrumentos, tradicionalmente de posse masculina, como relevou Mário de Andrade em ensaio escrito em 1933: “as mulheres nunca tocam. Os homens, pelo contrário, todos tocam”. Na sequência, o grupo Samba de Bumbo de Dandara realizará uma oficina de quadrinhas, a partir da reflexão sobre a mulher e técnicas do teatro do oprimido. O resultado final serão quadrinhas produzidas pelas participantes.
No segundo dia de atividade, 14 (sábado), o evento será aberto ao público, repetindo a projeção do filme, roda de conversa e encerramento com a apresentação do grupo Samba de Bumbo de Dandara, cantando músicas tradicionais da manifestação popular e as quadrinhas produzidas na oficina.
A cada mês, o projeto será desenvolvido em uma unidade diferente do CCM. Na atividade realizada em março, no CCM Itaquera, as participantes criaram a quadrinha: “Eu sei que posso / Ser livre sim / Seguir meu sonho / Ser forte assim”. Grace, 36 anos, participante da oficina revelou que esse foi um dia que vai ficar marcado na lembrança. “A mulher negra precisa mostrar o que ela faz e ser valorizada”, afirmou.

Grupo Samba de Bumbo de Dandara
O grupo Samba de Bumbo de Dandara surgiu no Carnaval de 2016, com o objetivo de empoderar as mulheres a partir dos instrumentos musicais do samba de bumbo. Tradicionalmente, na manifestação popular, os homens tocam e as mulheres dançam, nas apresentações do grupo Dandara, os papeis são invertidos e as mulheres tocam, questionando assim a divisão de gênero no samba rural paulista. São integrantes do grupo: a atriz, bailarina e arquiteta Irla Costa, a atriz e estudante Lucia Steves e a técnica em enfermagem Luciana Fernandes, também integrante e descendente direta do grupo “Treze de Maio”, fundado por negros recém libertos em 13 de maio de 1888.


Documentário “Esse Bumbo é meu” (2016)
O filme registra o samba de bumbo, expressão musical tradicional da região metropolitana (acrescentei porque Parnaíba e Pirapora não são consideradas cidades do interior), interior paulista e herança do tempo da escravidão. O documentário apresenta a luta das mulheres do samba para manterem viva a cultura de seus ancestrais, enfrentando preconceitos e conflitos com a política local. Soluções se apresentam, mas afinal, de quem é esse bumbo? Direção: Ruy Reis, Paula Simões, Dagmar Serpa, Marina Chekmysheva e Daniel Mirolli Elenco: Carmelino Euzebio de Jesus, Eni Soares de Sousa, Irla Costa, Lucia Steves, Luciana Oliveira de Jesus Fernandes, Luisa Camargo de Jesus.

Sobre CCMs
Os Centros de Cidadania da Mulher são espaços de qualificação e formação em cidadania, nos quais mulheres de diferentes idades, raças e crenças podem se organizar e defender seus direitos sociais, econômicos e culturais, além de propor e participar de ações e projetos que estimulam a implementação de políticas de igualdade com o objetivo de potencializar, por meio do controle social, os serviços públicos existentes para atender às suas necessidades e de sua comunidade.


Serviço
Data: 7 e 14 de abril (sábado)
Local: Rua Terezinha Prado Oliveira, 119 – Parelheiros
Contato: (11) 5921-3935 / 5921-3665
Gratuito
Público: Mulheres de todas as idades

Próximas datas:
19 e 26 de maio, das 14h as 17h
CCM Perus
Rua Joaquim Antonio Arruda, 74 – Perus

16 e 23 de junho, das 14h as 17h
CCM Capela do Socorro
R. Prof. Oscar Barreto Filho, 350 – Grajaú

7 e 14 de julho, das 14h as 17h
CCM Santo Amaro
Praça Salim Farrah Maluf s/n

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

6 projetos de lei que podem mudar a vida das mulheres brasileiras em 2018

Atualmente, existem mais de 1.700 propostas ligadas aos direitos da mulher em tramitação na Câmara e no Senado.

A tentativa de 18 homens para criminalizar o aborto até em casos de estupro. O fundo para a violência contra a mulher, previsto na Lei Maria da Penha, retirado da pauta do Congresso. Rebeca Mendes e o primeiro pedido concreto de aborto legal negado pelo STF. 2017 não foi um ano fácil para as mulheres.
Atualmente, existem mais de 1.700 propostas ligadas aos direitos da mulher em tramitação na Câmara e no Senado. Entre elas, questões ligadas ao aborto, direito à amamentação, mercado de trabalho, representatividade na política, discriminação por gênero, etc.
Abaixo, selecionamos 6 propostas que tratam dessas e outras questões consideradas essenciais para as mulheres brasileiras (e que podem mudar em 2018).

1. O direito ao aborto e a PEC ‘Cavalo de Tróia’
Manifestantes protestam contra texto aprovado na comissão especial da Câmara, em 13 de novembro de 2017. (Foto: NURPHOTO VIA GETTY IMAGES)

A Proposta de Emenda a Constituição (PEC) 181/2011 que determina que “a vida começa desde a concepção”, a fim de barrar a descriminalização do aborto no Brasil em todos os casos, deve voltar em 2018. O texto foi aprovado em uma comissão especial sobre o tema, em 8 de novembro de 2017, com 18 votos a favor, todos de homens, e um, da deputada Erika Kokay (PT-DF) contra, em uma sessão esvaziada.
Os integrantes do colegiado ainda precisam votar os destaques do relatório do deputado Tadeu Mudalen (DEM-SP). Porém, há divergências entre os deputados. Em dezembro, por diversas vezes as sessões foram adiadas e, ao que tudo indica, serão analisados novamente neste ano. Ainda não há data definida para a votação.
Um dia após a aprovação do texto-base, Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, afirmou que não irá proibir o aborto em caso de estupro, previsto no Código Penal. Maia afirmou a jornalistas que a Câmara irá ouvir juristas após a conclusão da votação dos destaques da proposta no colegiado a fim de garantir as previsões de aborto já legalizadas:

“Está tendo uma polêmica sobre esse tema. Tem que se tomar cuidado e analisar o texto porque tem duas posições. Uns que acreditam que o texto, de forma nenhuma, veda as excepcionalidades colocada e tem outro campo que acha que esse texto vai inviabilizar.”

A PEC tratava originalmente da ampliação da licença-maternidade no caso de prematuros, mas propôs também a alteração de dois artigos da Constituição para definir que a “vida começa na concepção”. Por isso o apelido “Cavalo de Tróia”.

2. A representação proporcional de mulheres na política
Luiza Erundina faz pronunciamento na sessão plenária para eleição do novo presidente da Câmara dos Deputados, em 2016. (Foto: WILSON DIAS/AGÊNCIA BRASIL)

Não é difícil perceber. Mas tanto a Câmara, quanto o Senado, nunca tiveram uma presidente mulher ao longo da história. Elas são mais da metade dos eleitores brasileiros, mas ocupam menos de 10% das vagas no Congresso Nacional. A bancada feminina tem 51 representantes na Câmara (9,94% das 513 cadeiras) e 13 no Senado (16% das 81 vagas).
Com a intenção de trazer equidade de gênero e garantir o lugar delas no campo da política, está em tramitação no Senado uma proposta de emenda constitucional, a PEC 38/2015, com autoria da deputada Luiza Erundina (PSOL-SP), que dá nova redação ao § 1º do art. 58 da Constituição Federal, que diz que “na constituição das Mesas e de cada Comissão, é assegurada, tanto quanto possível, a representação proporcional dos partidos ou dos blocos parlamentares que participam da respectiva Casa.”
Com a alteração, o artigo passaria a garantir a representação proporcional de cada sexo na composição das Mesas e Comissões do Congresso Nacional, da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, assegurando, ao menos, uma vaga para cada sexo. “Não tenho dúvidas de que a maior barreira é de inclusão da mulher na sociedade é o acesso ao poder”, disse Erundina em entrevista à Agência Brasil.

3. Pena de ‘importunação sexual’ para o assédio
Pôster da campanha “Meu corpo não é público”, após um homem ejacular em uma mulher em um ônibus em São Paulo, em agosto de 2017. (Foto: NURPHOTO VIA GETTY IMAGES)

Após diversos casos de assédio sexual contra mulheres no transporte público, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher aprovou, em setembro de 2017, uma proposta que cria o crime de importunação sexual. A relatora, deputada Laura Carneiro (PMDB-RJ), incluiu na proposta original a definição do crime de importunação sexual: “praticar, na presença de alguém e sem a sua anuência, ato libidinoso”.
A proposta também aumenta penas para estupro e criminaliza a divulgação de cenas de abuso sexual. A medida está prevista no Projeto de Lei 5452/16, do Senado, que altera o Código Penal (Decreto-Lei 2.848/40).Se aprovada, a pena será de dois a quatro anos de reclusão, cumprida inicialmente em regime fechado. O PL começou a ser discutida no plenário da Câmara em dezembro, mas ainda não tem previsão de quando será votada.

4. A injúria por questões de gênero poderá ser crime
Em 2018, a injúria praticada por questões de gênero poderá ser considerada crime pelo Código Penal (CP). Projeto de lei, PLS 291/2015, de autoria da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) altera o Código


 Penal, incluir no crime de injúria, a utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem, gênero ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência.
Atualmente, o CP pune o ato de injuriar alguém, com ofensas à dignidade ou ao decoro da vítima, com detenção de um a seis meses ou multa. Com a PLS aprovada, a pena de reclusão será de um a três anos e multa. Segundo Gleisi, atos que desqualifiquem ou desprezem um gênero em detrimento de outro são inadmissíveis. Ela afirma em sua justificativa:

“Sobretudo porque o tratamento igualitário de homens e mulheres é uma das bases de qualquer Estado Democrático de Direito.”

O PLS se encontra em tramitação no Senado, se não receber recurso para análise pelo Plenário do Senado, será enviada em seguida para a Câmara dos Deputados neste ano.

5. Agressor reincidente, demissão por justa causa



Condenados pelo crime de violência doméstica e familiar que reincidirem nesta prática poderão ser demitidos por justa causa. É o que estabelece o Projeto de Lei do Senado (PLS) 96/2017. A proposta, da senadora Rose de Freitas (PMDB-ES), modifica o Código Penal e tramita na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ). A senadora Simone Tebet (PMDB-MS) é a relatora do projeto.
Segundo o PLS, “o empregado demitido por justo motivo não tem direito de receber o 13º salário, as férias proporcionais, o saque do FGTS, além da indenização da multa de 40% sobre o valor depositado no FGTS, obrigatória em demissões sem justa causa”. Na justificativa do projeto, Rose de Freitas afirma:

“Apresento o presente PLS para que o agressor sinta no seu bolso o peso da prática de violência doméstica e familiar, uma vez que a penalidade prevista na forma da lei não é suficiente para levar a um reordenamento de postura pelo agressor.”

Na CCJ, a matéria deve ser votada em caráter terminativo: se aprovada, pode seguir para a Câmara dos Deputados sem deliberação em plenário.

6. Licença paternidade de 120 dias
120 dias de licença paternidade. Quatro meses exercendo a função de pai, com afastamento seguro do trabalho, ao lado da mãe. É o que quer o Projeto de Lei do Senado, PLS 652/2015, de autoria da senadora Vanessa Grazziotin, que altera a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e a Lei nº 8.213/91, sobre os Planos de Benefícios da Previdência Social, para estabelecer licença-paternidade de 120 dias.
O projeto está em tramitação no Senado. “Acreditamos firmemente que, ao igualarmos os períodos das licenças-maternidade e paternidade, estamos, a um só tempo, promovendo a igualdade de gênero no mercado de trabalho e possibilitando ao homem a vivência integral de seu papel paternal”, afirma Grazziotin, em sua justificativa.
Atualmente, enquanto as mães com carteira assinada têm entre quatro e seis meses garantidos para se dedicar à criação dos filhos, a maior parte dos pais na mesma situação de emprego conta com apenas cinco dias. Recentemente, um decreto ampliou a licença paternidade de funcionários públicos para 20 dias.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Zumbi dos Palmares: líder da luta e da resistência do povo negro.

Escrito por Nanci Vellose de Souza
Professora, Pedagoga e Psicopedagoga


...e como sempre o líder foi perseguido. Aquele que apontou as injustiças, aquele que organizou o resgate dos cativos que estavam em sofrimento, aquele que “ousou” contrariar o sistema; um “podre poder” firmado com bases na opressão e na força.

É triste relembrar a escravidão, mas esse tema já gerou romances por conta do exagero de tantas dores e sofrimentos, se transformou em tema de inúmeros poemas e também em bandeiras de lutas e posteriormente foi celebrado pelas vitórias e conquistas.

Trazendo a escravidão que foi um fato passado na historicidade e contrapondo aos dias atuais, eu digo que Zumbi foi quem empoderou os cativos, pois foi ele que vislumbrou a possibilidade de fugir e de maneira organizada lutar para mudar aquela situação ultrajante na qual os negros escravizados viviam.

Quando fecho os olhos e me remeto ao passado, consigo 
imaginar a organização dos movimentos em prol da liberdade de negros cativos, a funcionabilidade dos quilombos e o maravilhoso sistema de ajuda mútua que foi organizado, onde arcando com todas as consequências, muitos se expunham e lutavam pela vida dos outros, arriscando a própria vida.

Zumbi foi o líder da resistência do povo negro e para homenageá-lo que foi escolhida a data de sua morte (20 de Novembro), para ser o dia da Consciência Negra; mas é preciso compreender que o nome “Consciência Negra” vai muito além de uma data comemorativa no calendário; representa atitude, movimento, organização, ações afirmativas constantes em benefício do povo negro e das suas causas.

Nos dias atuais temos vários Núcleos que podemos dizer que são representações vivas de Zumbi; pessoas que diariamente lutam, leem, escrevem e de alguma maneira representam a resistência contra a opressão dos racistas, pessoas que lutam com toda força, garra e disposição para empoderar os negros, tornando-os visíveis e inserindo-os socialmente de maneira igualitária.

De acordo com a diáspora africana todos nós negros somos “um pouco Zumbi” (por conta da ancestralidade), todos nós somos seguidores de Zumbi e compartilhamos do sonho de liberdade que “Ele” sonhou; temos o compromisso da resistência, da resiliência e da luta sem fim por igualdade.

Zumbi se foi, e seu legado de luta ficou, e representar a luta de Zumbi é responsabilidade de todos os negros. Salve Zumbi!


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Manifesto particular contra todo tipo de intolerância

por Nanci Vellose de Souza
contato:nancivelpsc@gmail.com
Professora, Pedagoga e Psicopedagoga

Atualmente tenho lido muitas notícias, nas mais variadas mídias fazendo relatos sobre a intolerância, sobre cartazes expostos com manifestações de ódio, sobre intolerância religiosa, vetos a movimentos de livre expressão, escolas tendo seus projetos barrados por conta da temática discutida, a liberdade sendo vigiada num falso discurso democrático que ao mesmo tempo liberta e controla as ações populares, e todos esses fatos ao mesmo tempo que me indigna e amedronta. Será que vamos presenciar os horrores vividos na época da ditadura?

Depois de tantas discussões, lutas, resistência e ações buscando liberdade de expressão e igualdades de direitos a todos; retroceder seria muito triste.

O que mais me preocupa é a disseminação de ideias ruins, sendo propagadas abertamente e abrindo possibilidades para que outras pessoas que tenham incutidos em si o racismo, o preconceito e a intolerância se sintam fortalecidas a se juntar aos “tais grupos” e façam avivar em si aqueles antigos sentimentos de ódio que há muito tempo estavam adormecidos; e a situação realmente comece a se complicar.

Vivemos num mundo onde os nossos ideais não são os mesmos, nem tão pouco as nossas crenças, valores e escolhas, mas é preciso acreditar que as nossas diferenças não nos tornam inimigos, que a cor de nossa pele não nos faz inferiores ou superiores uns aos outros, que a opção sexual de um indivíduo não o diminui, que todos os grupos étnicos devem ser valorizados e suas histórias respeitadas. Somos todos iguais.

Os assuntos que nos séculos passados eram tabus, hoje são tratados abertamente, o que nos incomoda deve ser trazido a mesa para discussões, o vão que nos separa por divergentes opiniões não pode ser maior que os laços que nos unem enquanto cidadãos que vivem numa democracia e que por lei devem ter os seus direitos a livre expressão preservados e garantidos.

Não tenho lindas palavras para falar de algo que me desagrada, mas tenho claro em mim o sentimento de tristeza e medo de ver cada dia as fontes de notícias divulgando que a intolerância levou os homens ao caos, e me envergonho ao pensar que se tudo seguir nesse compasso, num futuro bem próximo todas as pessoas não mais se respeitarão, se atacarão, se ofenderão e não poderão se manifestar publicamente nem opinar sobre aquilo que acreditam.

Me esforço para acreditar que a Segurança Pública irá garantir os nossos direitos legais, de ir e vir, de nos expressarmos livremente e que irão nos salvaguardar de ataques de racismo, preconceito, ódio e todos os tipos de intolerância e espero que venham dias melhores ...




quarta-feira, 25 de outubro de 2017

MEUS CABELOS CRESPOS NÃO SÃO A MINHA ÚNICA IDENTIDADE NEGRA.

Escrito por Nanci Vellose de Souza
contato:nancivelpsc@gmail.com
Professora, Pedagoga e Psicopedagoga                      

Mudar momentaneamente o formato original do seu cabelo afro, não quer dizer que você esteja negando a sua identidade negra, e sim que você está exercendo o seu direito de liberdade (tal qual os outros grupos étnicos o fazem); e ainda está se permitindo ser livre e se apresentar em público como quiser, ora lisa, ora crespa, mas da maneira que se sentir feliz naquele momento.
Entendo que o cabelo crespos seja um traço característicos dos negros, mas não é apenas o cabelo que me representa enquanto negra.

O lamentável equívoco está numa linha de pensamento radical que padroniza, “engessa” o negro e limita suas possibilidades de escolha, afirmando que o negro deve assumir o seu cabelo crespo sem outras possibilidades de escolha.

Durante um evento em Florianópolis-SC, tomei conhecimento do desagrado e desentendimento que o critério de verificação de negros e não negros, (para identificar quem terá direito às cotas ou não), está causando e pautada nessa discussão podemos nos apoiar e afirmar que a identidade de uma pessoa não é representada apenas  pelo formato  apresentado em seu cabelo afro ou não. 
Afinal, o que é identidade, como somos identificados enquanto negros? Vamos aos conceitos :


“aquilo que diferencia cada um e nós e só nos iguala a nós mesmos    ,

mesmo que seja entendida num processo de transformação, é da ordem
da representação e está localizada na consciência... Ela diz respeito à
imagem como a pessoa se vê no plano subjetivo, como percebe o   que
lhe é próprio enquanto individualidade diferenciada”. (Gomes, 1995
p.42 e 43)

Continuo nos meus pensamentos e questiono: Se dentro do termo “negro” podemos encaixar vários tons de pele entre o preto retinto e o pardo com diferentes tons de pele, também podemos aceitar vários formatos de cabelos com diferentes ondulações e volumes, indo do crespo menos volumoso ao muito crespo.
Não será o volume dos cabelos a razão da perda de identidade de um indivíduo negro e sim como foi construída e entendida a sua identidade, como o indivíduo se aceita. A opção de estar com os cabelos quimicamente modificados ou diferentes do seu formato original crespo, não será o fator determinante para a perda de identidade de ninguém, pois um indivíduo pode se apresentar no cotidiano com os cabelos lindamente crespos e volumosos e ao ser abordado por um órgão de pesquisas e se declarar branco por não se aceitar negro, nem mesmo sabendo qual o seu histórico familiar...

Por fim, vale a reflexão e o alerta que fica para as linhas radicais de pensamento, que  não padronize os negros e negras, que permitam que as pessoas  sejam livres e que vivam de acordo com suas escolhas, ninguém é obrigado a se apresentar como não deseja apenas por conta de um padrão socialmente traçado  ou para não desagradar o discurso daquela pessoa que  tanto admira....deixe que a mulher negra seja feliz do jeito que ela quer ser...mulher é como camaleão, cada dia está de um jeito de acordo com seu estado de espírito...vivam e deixem os outros viver usufruindo do  seu direito de se expressar como quiser. Uma gosta liso, outra crespo, outra trançado, outra solto, outra com “mega-hair”, outra passa a  chapinha, mas todas são negras e se reconhecem como pertencentes a esse grupo.

O importante ao meu ver é que a pessoa se entenda enquanto negra, que aceite sua origem, que valorize a sua história e compreenda a diáspora e seja feliz. Não podemos admitir que uma pessoa deixe de frequentar um ambiente por que seu cabelo está quimicamente tratado e será constrangida por outros em virtude de sua escolha.

Não concordo e nem aceito nenhuma linha radical de pensamento que padroniza pessoas em série, que limita possibilidades e que distorce conceitos. A história do povo negro já vem por si só carregada de marcas e dores que não cessam, e espero que não seja agora a padronização de um formato de cabelo que venha fazer mulheres infelizes por não poderem fazer valer o seu direito de liberdade de escolha.

Referências Bibliográficas:
GOMES, Nilma L. A mulher negra que vi de perto. Belo Horizonte: Maza edições, 1995.

A importância de professores negros como referência para educandos negros , e a necessidade de mesclar a sala dos professores entre pretos e brancos.

Escrito por
Nanci Vellose de Souza 

contato: nancivelpsc@gmail.com                     
Professora, Pedagoga e Psicopedagoga


O objetivo desse relato de experiência é ressaltar a importância da referência de professores negros para educandos negros, tanto na primeira infância, quanto em quaisquer outros estágios de desenvolvimento e formação.
Nessa jornada na carreira do magistério percebo que a sala os professores poderia ter um tom mais mesclado entre "pretos e brancos", ou seja, vejo uma disparidade entre o número de professores negros e brancos no recinto escolar.
Historicamente esta disparidade quantitativa poderia ser justificada por conta de um período quando foi negado aos negros o direito de acesso às escolas, mas muito embora esse fato histórico tenha ocorrido há tanto tempo, ainda não houve uma retomada total dos espaços para que a representação dos negros no cenário social seja igualada à ocupação dos demais grupos étnicos.
O que mais me preocupa nessa análise é que existem espaços a serem ocupados, mas também existe o recuo por um grande grupo de negros que não se sentem representados por serem minoria.
Conversando com uma colega, também professora e negra como eu, percebi nela um "nó na garganta", um “grito guardado", certa indignação ao perceber a pequena representatividade de negros no âmbito escolar; que o número de professores negros no espaço escolar equivale a menos de 1% do total de aproximadamente 90 professores.
Essa observação incomodou minha colega, mas não me apavora nem intimida, serve como alerta, pois entendo que se quisermos espaços igualitários, como a lei nos permite ter, temos que tomar posse dos espaços que queremos para nós e; se recuarmos sempre, cada hora com uma alegação diferente, não estaremos sendo merecedores de todo o sacrifício que nossos antepassados fizeram em busca de liberdade e igualdade de direitos, e sigo nessa reflexão...
Quanto aos educandos dos anos iniciais (cito 1º ano, seis anos de idade); percebo que os alunos negros se identificam mais do que os outros com os professores negros, se aproximam de maneira diferente, mais afetivos, buscando acolhimento próximo a "um igual" a si. Isso ocorreu comigo principalmente no primeiro trimestre do ano corrente, quando as crianças estavam recém chegadas das creches e núcleos de educação infantil, onde o contato e o acolhimento são diferenciados, principalmente por ser esse um dos primeiros núcleos sociais dos quais estas crianças pertencem depois de seus núcleos familiares.
Poderíamos analisar nesse momento alguns aspectos estatísticos e efetivar esse relato com bases numéricas atuais, mas os números apenas iriam confirmar o que já sabemos, que há defasagem de negros no magistério, nas universidades, no cenário nas artes, e em tantos outros espaços....
Com esse relato eu busco colocar em discussão duas reflexões básicas:
- É preciso motivar os negros a assumirem os espaços que estão à sua espera, fazer com que estejam presentes em todos os espaços, se tornem visíveis aos olhos de todos e usufruam dos benefícios conquistados, através de muita luta.
- Alertar sobre a necessidade de se apropriarem de sua identidade negra, de reparar as perdas históricas, de se libertar das antigas amarras e se valorizar enquanto pessoa e enquanto grupo social de grande representatividade para a história do Brasil.

Apenas quando os negros entenderem o peso e o valor da cultura negra (africana e afro-brasileira) para a História, poderemos então ver todos os espaços sociais e não apenas as sala dos professores, mesclados igualmente entre "pretos e brancos", e cabe a cada um de nós negros lutar para equiparar os números e realmente igualar a ocupação dos espaços sociais por todos os grupos étnicos.
Ainda hoje tenho grandes mestres e doutores negros que me inspiram a seguir adiante e que me servem como referência e sou grata a todos os que lutam pelas causas dos negros e pela educação.

A IDENTIDADE DA CRIANÇA NEGRA, A FAMÍLIA E AS AÇÕES AFIRMATIVAS NA ESCOLA.


Escrito por Nanci Vellose de Souza
contato : nancivelpsc@gmail.com
Professora, Pedagoga e Psicopedagoga
Para abrirmos o tema identidade da criança negra e ações afirmativas na escola, temos que iniciar o assunto voltando para o começo da história de vida de uma criança negra para entendermos alguns pontos importantes; como a criança negra está sendo criada; qual o entendimento sobre quem ela é, sobre sua cor, seus cabelos, suas origens, sobre como ela se vê em relação aos outros, sobre o fator autoestima, que irá determinar se esta criança irá gostar de si e se aceitar, perceber a partir de observações individuais e grupais se esta criança gosta de si com as suas características, e principalmente sondar essa criança para saber o que incutiram em sua cabeça durante o processo de desenvolvimento.
De acordo com o meu entendimento o processo de formação da identidade da criança deverá ser iniciado em casa, antes da chegada da criança ao núcleo de educação infantil e o meio onde essa criança está inserida também será fator determinante para a formação de sua identidade, pois alguns equívocos vistos e ouvidos, poderão lamentavelmente serem repetidos e a criança tende a internalizar o que ouve e vê e reproduzir em seguida.
Muito embora algumas famílias achem que não estão preparadas para tratar sobre o tema identidade, penso que em casa as famílias devam responder de maneira simplificada a todas as perguntas feitas pelas crianças, promover as interações sociais de seus filhos com outros grupos étnicos, fazer com que a caixa de brinquedos seja mesclada com bonecos brancos e negros, que as histórias infantis tragam nos livros os príncipes e as princesas negras juntos aos demais livros e que o convívio com diferentes grupos raciais seja o mais natural possível; esse é segundo o meu olhar o caminho inicial para se dissipar o preconceito.
O ideal seria que quando uma criança, seja ela negra ou branca, chegue ao núcleo de educação infantil ou nos anos iniciais de sua escolarização, já tenha tomado conhecimento que existem diferenças entre as pessoas, que existem vários tons de pele, vários tipos de cabelo, aparências diferentes umas das outras, e que todos deverão conviver no mesmo espaço e se respeitar.
Nos núcleos de educação infantil, ou nos anos iniciais da escolarização, as práticas pedagógicas trarão intencionalmente propostas que levarão as crianças a se observar e a observar o outro e assim surgirão as primeiras problematizações e as posteriores explicações.
Os professores deverão estar preparados para os mais variados questionamentos e ter vasto referencial de leituras para permitir clareza em suas respostas e quando surgirem as questões de preconceito no espaço escolar deverão ser agentes mediadores do problema e se manter imparcial.
Na espaço escolar as ações afirmativas irão se concretizar pelas mãos dos professores, que terão a incumbência de fazer com que todos os grupos se sintam representados no contexto trabalhado, pois quando um indivíduo não se sente representado, ele não se interessa pelo tema, e o nível de interesse e participação baixam muito.
A questão das ações afirmativas, não é muito complicada, a complicação surge a partir do não entendimento. A maneira mais simplificada de entender as ações afirmativas, poderíamos dizer que são aquelas ações pensadas para diminuir ou minimizar as desigualdades, que incluirão pessoas que foram excluídas, seja por fatores econômicos, sociais, raciais entre elas e as ações essas que irão reforçar positivamente o indivíduo, afim de que esse se torne agente de sua história de vida, criando oportunidade de visibilidade e inserção social, a partir de ações motivadoras.
O principal foco da ação afirmativa é fazer com que todos os grupos se vejam representados e possam competir igualmente, ter as mesmas oportunidades sociais e se sentir parte do contexto.
Falar sobre ações afirmativas na escola, quer dizer que temos que abrir discussões sobre esse tema, que é preciso debater, rever o currículo escolar, ir em busca da valorização da identidade negra, fazer com que o negro se orgulhe de ser quem é , de buscar orientação e formação para os professores afim de que os equívocos cometidos nos materiais didáticos e na historicidade da África e dos africanos não sejam repetidos e para que todos os grupos sejam vistos e representados no cotidiano escolar.
Para conseguirmos diminuir registros de casos de bullyng, expressões visíveis de racismo e   preconceito, xenofobia, homofobia, temos que falar sobre o assunto da igualdade racial, sobre os direitos legais adquiridos nos últimos anos e que nos garante o direito de estar em todos os lugares, de sermos tratados igualmente, de vestir o que quisermos, de ter os cabelos volumosos e crespos, enfim, de ser quem somos e como somos, de sermos autênticos...
Valorizar a cultura africana, o processo de aculturação que esse convívio nos proporcionou é a única receita para seguirmos em busca de outras políticas de ações afirmativas. Não podemos mais não mencionar determinados assuntos, temos que falar sobre o que nos incomoda e apenas assim criar possibilidades de resolver os problemas que a sociedade nos apresenta cotidianamente.
 Fpolis,07/17

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Palestra completa de Angela Davisna UFBA em Julho das Pretas

Com tradução de Raquel Souza e transcrição feitas pelas ativistas Carol Correia e Monyque Assis, leia a  palestra “Atravessando o tempo e construindo o futuro da luta contra o racismo” de Angela Davis, no Julho das Pretas, em 25 de julho de 2017, no salão nobre da reitoria de UFBA, em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres Afrolatinas e Caribenhas

 

Introdução da palestrante [palavras da própria gravação]

Angela Davis é filósofa, ativista feminista e defensora dos direitos civis da população negra. Fez parte do Panteras Negras e do Partido Comunista dos Estados Unidos. Em 1970, foi perseguida e presa. Ativistas tomaram as ruas exigindo: “Libertem Angela Davis!”. Publicou em 1981 uma de suas mais importantes obras: “Mulheres, Raça e Classe”. O livro transmite sua militância em defesa das políticas de igualdade de gênero e combate ao racismo. Considera que raça, classe e gênero estão entrelaçados e que juntos podem criar diferentes tipos de opressão.

Palestra em homenagem ao dia 25 de julho, Dia da Mulher Afro-Latina e Caribenha.

Boa noite. Eu não consigo dizer a vocês quão emocionada eu estou em estar na presença de vocês essa noite. Isso certamente é como deveria ser a aparência de uma Universidade. Eu gostaria de agradecer Ângela Figueiredo, a Odara, ao Centro de Estudos de Gênero da UFBA, por me convidar para vir aqui e homenagear o dia 25 de julho. Essa é minha quarta visita a Bahia e a minha sexta visita ao Brasil e nesse momento eu me sinto extremamente envergonhada por ainda não ter aprendido português. Então esse será meu próximo projeto!

Eu estou muito feliz de estar aqui celebrando o Dia de Mulheres Afro-Latinas e Caribenhas e eu sei que aqui esse dia é conhecido como Julho das Pretas. Então eu estou muitíssimo entusiasmada de estar aqui no Brasil, especialmente porque eu tenho acompanhado recentes situações dentro do Movimento de Mulheres Negras e me parece que, nesse momento contemporâneo, as mulheres negras brasileiras representam o futuro do Movimento.

Mulheres negras no Brasil têm uma história bastante longa em envolvimento em lutas em prol da liberdade. Como tem sido simbolizada pela continuidade da Irmandade da Boa Morte. O conceito de Boa Morte em si nos faz imaginar um futuro melhor. Isso me leva a reconhecer as amplas contribuições das mulheres negras no Brasil e na Bahia em termos da cultura religiosa desse local. Durante essa visita eu fui honrada com a possibilidade de atender uma oficina dentro da Irmandade da Boa Morte.

E, também, em de passar tempo com Dona Dalva com quem tive a oportunidade de aprender sobre o papel de Dona Dalva em preservar o samba de roda e ela recebeu um diploma de doutorado honoris causa pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano. Eu gostaria de ressaltar que alguns anos atrás fui honrada pelo convite de conhecer o terreiro e de me encontrar com Mãe Estela. E elas me disseram sobre seus esforços de preservar a cultura e a religiosidade dentro das tradições baianas e que as mulheres negras estavam no cerne dessas tradições.
Como foi dito por Dulce Pereira, eu já venho ao Brasil desde 1997 e eu nunca irei me esquecer daquele encontro que ocorreu em 1997 em São Luís no Maranhão. Tive a oportunidade de encontrar Luísa Barros pela primeira vez e o espírito delacontinua a viver e a estar aqui presente conosco.

E também encontrei pela primeira vez, Vilma Reis e tantas outras mulheres negras maravilhosas, em qual eu continuo a me encontrar todas as vezes em que venho ao Brasil.
A atual visita organizada pela Professora Doutora Ângela Figueiredo foi um encontro organizado em conexão a uma reunião mais ampla, a um curso organizado em Cachoeira sobre Feminismo Negro Decolonial. E eu agradeço a Ângela, em que toda vez que alguém chama seu nome [de Ângela Figueiredo], eu também olho, mas eu agradeço a ela por ter me convidado de novo e de novo para vir a Bahia. As pessoas me perguntam “você já foi ao Rio de Janeiro”, eu digo “não”; “você já foi a São Paulo?”, eu digo “não, mas eu já fui a Salvador, Bahia, várias e várias vezes”.

Eu menciono essa escolha porque ela reuniu estudantes negras do Brasil, da América do Sul, da África do Sul, do Canadá, dos Estados Unidos e do Porto Rico e, ao fazê-lo, produzir concepções importantes que poderiam não ter sido disponibilizadas, se esse encontro não fosse corrido. Todos nós que tivemos a oportunidade de virmos de outras partes do mundo, temos muita sorte de estarmos aqui nesse momento, onde o ativismo de mulheres negras está elevado; a gente está pela gente.

E como já foi dito e reiterado várias vezes, o movimento social liderado por mulheres negras é o movimento social mais importante do Brasil.
Após o Golpe antidemocrático que resultou na retirada de Dilma Rousseff, após a ocorrência desse golpe de Estado, as mulheres negras criaram a melhor esperança para esse país. Muitas de nós nos Estados Unidos estávamos muito entusiasmadas acompanhando a Marcha das Mulheres Negras no Brasil em novembro de 2015 e nós continuamos a sentir as reverberações dessa marcha e  estamos no Julho das Pretas.
Este é um momento difícil para o nosso planeta por vários motivos, principalmente em função de termos uma guinada para a Direita na Europa, nos Estados Unidos, na América do Sul, especialmente aqui no Brasil.

Eu não tenho nem como explicar para vocês qual é a sensação de morar nos Estados Unidos, no qual Donald Trump é o presidente, mas não devemos nos esquecer que um dia após a posse dele, o Movimento de Mulheres trouxe para Washington três vezes mais pessoas do que o número que atendeu a cerimônia de posse de Donald Trump. Estima-se que mais de 5 milhões de pessoas participaram na Marcha das Mulheres contra Trump por todo o mundo, até na Antártica.

A Marcha das Mulheres em Washington foi liderada por mulheres negras, latinas, asiáticas, indígenas, muçulmanas e também mulheres brancas. Nós nos encontramos em Washington e por todo o mundo de todos os países para dizer que: "Nós resistiremos, nós resistiremos! Todos os dias da presidência de Donald Trump, nós resistiremos! Nós resistiremos ao racismo, à exploração capitalista, ao hetero-patriarcado. Nós resistiremos a islamofobia e ao preconceito contra pessoas portadoras de deficiências físicas e nós defenderemos o meio ambiente dos ataques insistentes e predatórios do capital."

Aqui em Salvador, no dia 25 de julho, o dia dedicado às mulheres negras na América Latina e no Caribe, dizemos de forma ainda mais forte, com a força e o poder das mulheres negras nessa região: Nós resistiremos! Nós sabemos que as transformações históricas sempre começam com as pessoas, essa é a mensagem do Movimento Vidas Negras Importam (Black Lives Matter), quando as vidas negras começarem a realmente ter importância, isso significará que todas as vidas têm importância. E podemos dizer também, especificamente, que quando as vidas das mulheres negras importam, então o mundo será transformado e nós teremos a certeza, então, que todas as vidas importarão. As lutas das mulheres negras estão conectadas às lutas de pessoas oprimidas em todas as partes.
Para aqueles que dizem não às políticas anti-imigração de Donald Trump e a construção de seu muro; para aqueles que dizem não ao apartheid e para o muro que está separando a ocupação Palestina — Israel; para aqueles que dizem não ao racismo e a misoginia na Colômbia; para aqueles que dizem não ao sistema de castas na Índia; e nós estamos em solidariedade com as mulheres dalit e suas comunidades; para aquelas que dizem não à violência cotidiana, à violência doméstica eà violência íntima, que incidem sobre as mulheres negras e que geralmente são perpetuadas por homens negros.
Assim como, finalmente tem sido reconhecido as mulheres negras pelo trabalho que sempre desenvolveram em manter as chamas de liberdade ardentes, a liderança das mulheres negras nos movimentos antirracistas tem finalmente sido reconhecida, não é o tipo de liderança que tenta dar visibilidade ou poder a indivíduos, não é o tipo de liderança que é baseado em carisma, o individualismo masculino carismático, mas é o tipo de liderança que enfatiza as intervenções coletivas e apoia as comunidades que estão em luta.

"A liderança feminista negra é fundamentalmente coletiva"
 
A liderança feminista negra é fundamentalmente coletiva. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, reconhecemos a importância de confrontar a violência do Estado. Enquanto o racismo está saturando todas as nossas instituições, a questão da moradia, do emprego, da assistência de saúde e acesso à educação e, que pode ser mais dramaticamente, de policiamento e punição.
Mulheres negras têm propiciado liderança contra a violência estatal, contra a violência policial, contra o racismo no sistema carcerário, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Eu tenho falado aqui sobre a liderança das mulheres negras, mas eu deveria estar me referindo a liderança feminista negra; enquanto é necessário enfatizar a categoria de mulheres negras, pela perspectiva de gênero e de raça, nós reconhecemos que também estamos estão aplicados nisso: classe, sexualidade, capacidade e o gênero para além do convencional binário e que nosso foco é nas mulheres negras empobrecidas, incluindo as mulheres negras que estão encarceradas, incluindo mulheres negras gays, incluindo mulheres negras trans, incluindo mulheres negras portadoras de deficiência.
Mas também estamos conscientes de que não estamos focando na mulher negra através de um arcabouço separatista, porque as mulheres negras também estão se engajando nos movimentos de outros grupos; as vezes ao ponto de elas mesmas serem ignoradas nesse movimento.
As mulheres negras estão entre o grupo mais ignorados, subjugados e também os mais atacados no planeta. As mulheres negras estão entre os grupos mais não-libertos do mundo, mas ao mesmo tempo as mulheres negras têm uma trajetória que perpassa barreiras geográficas e da nação de sempre manter a esperança da liberdade viva.

As mulheres negras representam tanto a falta de liberdade e, ao mesmo tempo, as mesmas consistentes nessa tradição de que foi rompida pela luta à liberdade, desde o tempo da colonização, da escravidão e até o presente.
Lembramo-nos de Rosa Parks que sempre enfatizou que ela gostaria de ser relembrada como mulher que queria ser livre, de tal forma que todas as pessoas pudessem ser livres. Lembre-nos de Lilian Ngoyi, uma das mulheres que foram líderes do Movimento Anti-Passe, na África do Sul, que disse em 1956, entre todas as suas outras irmãs “agora que vocês atingiram as mulheres, você acionou um trator e você será esmagado!”. Carolina Maria de Jesus nos lembrou que a fome deveria nos levar a refletir sobre as crianças e sobre o futuro. E muito tempo antes do conceito de interseccionalidade ter sido utilizado, Lélia González não apenas insistia que não só deveríamos compreender que a completa inter-relação de raça, classe e gênero; mas insistia também que deveríamos ter em mente as nossas conexões, os nossos elos com a comunidade indígena; as conexões com os povos indígenas e os povos negros. E essa é uma das lições que nós dos Estados Unidos precisamos aprender com a história do feminismo negro no Brasil.

O que me leva a minha próxima questão: Existem geralmente a pressuposição que a forma mais avançada de feminismo negro será encontrada nos Estados Unidos. É verdade que há muitas figuras bastantes conhecidas norte-americanas que são associadas ao desenvolvimento do feminismo negro. Mas deveria ser reconhecido que isso não se dá pelo fato de sermos mais avançados; isso seria uma pressuposição imperialista e colonial. Mas na verdade, isso ocorre porque as ideias de lá, sejam elas conservadoras ou radicais, viajam e circulam com muita mais facilidade do que as ideias que emergem e emanam, por exemplo, daqui do Brasil. Então, eu não posso me levar tão a sério assim.
No que diz respeito a mim, eu sempre gosto de apontar que ninguém jamais teria reconhecido meu nome, se as pessoas de todo o mundo não tivessem se organizado e se juntaram a luta, exigindo a minha liberdade no início dos anos 1970. É verdade que cada uma dessas viagens que fiz ao Brasil tem me trazido muitos insights, muitas perspectivas novas.

Desde a primeira conferência organizada por Leila Gonzáles em 1997 no Maranhão, até a escola do feminismo negro descolonial que participei agora recentemente em Cachoeira. E portanto, a partir disso, passo a questionar o meu papel em trazer o conhecimento feminista negro para o Brasil. Passei a perceber que nós nos Estados Unidos somos aquelas que necessitamos aprender com o conhecimento e os insights que são produzidos pela longa história de luta feminista negra no brasil. Nós precisamos conhecer sobre o poder Feminista Negro preservado dentro da tradição do Candomblé. Nós precisamos aprender sobre os movimentos bem sucedidos organizados por mulheres negras trabalhadoras domésticas aqui na Bahia e no Brasil.

Eu tive o privilégio de conhecer Marinalva Barbosa que é a presidente do Movimento do Sindicato de trabalhadoras domésticas aqui na Bahia, temos muito a aprender com o trabalho dessas mulheres porque nós ainda não conseguimos nos organizar de maneira bem sucedida através de sindicatos dessa categoria nos Estados Unidos.

Apesar do fato de que mulheres negras que trabalhavam como lavadores e fizeram uma greve em 1988 em Atlanta na Geórgia, mesmo apesar do fato de que nos anos 1920 e nos anos 1950 houveram esforços que não foram bem sucedidos de organizar sindicatos dessa categoria. Não é uma coincidência que Alicia Garza, uma das fundadoras do movimento Black Lives Matter, mesmo assim ainda não temos um sindicato de trabalhadoras domesticas.
Deixe-me compartilhar com vocês algumas palavras sobre o complexo industrial prisional; está correto afirmar que o Brasil tem a quarta população carcerária do mundo. A quarta, sendo a primeira EUA, Rússia e China. Agora, os EUA estão comportando 1/4 de toda a população carcerária do mundo.

E se olhamos para a população carcerária feminina, 1/3 dessa população está sendo encarcerada nos EUA. Se tivéssemos tempo, essa noite poderíamos falar mais aprofundadamente sobre o fato de que de essa população carcerária reflete o tipo de sistema capitalista global e como esse sistema negligencia as necessidades humanas.

Populações que não tem acesso à educação, a moradia ou ao sistema de saúde ou a quaisquer outros serviços que são necessários a vida humana. A rede carcerária mundial representa um vasto depósito de lixo, nos quais pessoas que não tem importância são depositadas, descartadas. As pessoas que tem a menor importância são as pessoas negras, sul-americanos, muçulmanos, pessoas de descendência indígena. Quando nós trabalhamos e lutamos contra violência do Estado e como ela se manifesta através das práticas policiais e das práticas de encarceramento, nós dizemos que as pessoas negras importam, que as pessoas de descendência indígena importam.

A professora Denise Carrascosa, que é professora aqui na Universidade Federal da Bahia, que tem liderado um projeto de mulheres dentro do sistema carcerário, um projeto teatral dentro do sistema carcerário, chamado corpos indóceis e mentes livres, é um projeto entusiasmante que reúne mulheres encarceradas de tal forma que elas possam dramatizar suas realidades e suas vidas., esses são os tipos de projetos inovadores que produzem conhecimentos feministas sobre a relação entre a liberdade e a não-liberdade.

E eu acabei de ser informada que a professora Carrascosa tem sido impedida de entrar nesse Complexo Prisional Feminino na Bahia porque ela se juntou a outras encarceradas em protesto contra o tratamento punitivo de uma mulher que foi trancada e a ela foi negada medicação necessária pós cirúrgicos. E em função da professora Carrascosa ter levantado sua voz, o seu projeto que já dura 7 anos foi barrado.

Então, eu gostaria de perguntar a vocês o que vocês farão em relação a essa situação? Eu gostaria de sugerir que vocês começassem a pedir a cada uma das pessoas que estão presentes aqui nesse auditório para assinar um abaixo-assinado exigindo que esse projeto seja reincorporado. Sabemos que nos últimos dez anos houve um aumento de 500% na taxa de encarceramento de mulheres e 2/3 de todas as mulheres que estão encarceradas no Brasil são mulheres negras.
Então, isso me leva aos meus dois últimos pontos em conclusão.
Um deles diz respeito a reprodução da violência, nós não podemos excluir a violência doméstica, a violência no âmbito íntimo e a violência intima das nossas teorias sobre violência estatal e a violência institucional.

Frequentemente agimos como se um não tivesse nada a ver com o outro e que se as mulheres negras são vítimas dessa violência cotidiana que é infligida por seus maridos e seus namorados, isso significa simplesmente que os homens negros e os rapazes negros são violentos.
Mas como é que podemos pensar isso? Nós precisamos nos perguntar qual é a fonte dessa violência que prejudica e que fere tantas mulheres negras? Qual a relação dessa violência com a violência policial e a violência do sistema carcerário? Se essa violência do âmbito doméstico esta simbioticamente conectada com a violência institucional e a violência estatal?
Isso significa que nós não conseguiremos erradicar a violência doméstica simplesmente por enviar aqueles que perpetuam a violência doméstica para o sistema carcerário. Isso significa que se queremos, se desejamos erradicar as formas mais endêmicas de violência individual na face da terra, devemos também eliminar as fontes institucionais de violência.

Esse é um chamado pela abolição do encarceramento como forma dominante de punição. Este é um chamado para pensarmos novas formas de abordar aqueles que são feridos a violência. Esta é a chamada feminista negra para formas de justiças descoloniais que não sejam de retribuição vingativa.
Meu último ponto será breve e diz respeito aos esforços para conter a nossa resistência. Quando nós resistimos, instituições dominantes e principalmente o estado tentam nos conter, tentam conter a nossa resistência. Querem transformar as nossas lutas em estratégias para consolidação do estado nação.

O movimento de direitos civis agora é aclamado pelo Estado ou reivindicado pelo estado como central em suas narrativas sobre a democracia. Mas o movimento Black LIves Matter, principalmente na Era Trump é vivenciado ou narrado como um ataque.
No Brasil, agora que o mito na democracia racial foi completamente exposto, a pergunta agora diz respeito à se o movimento de resistência das mulheres negras pode ser assimilado, então dizemos que a medida que nos erguemos contra o racismo, nós não estamos reivindicando sermos inclusas numa sociedade racista.
Se dizemos não ao heteropatriarcado, então não estamos desejosas de sermos assimiladas em uma sociedade que é profundamente misógina e profundamente patriarcal. Se dizemos não a pobreza, nós não queremos ser contidas dentro de uma estrutura capitalista que valoriza muito mais o lucro do que os seres humanos.

E se reconhecemos que aqueles que queriam resolver o problema da escravidão através da criação de formas mais humanas de escravidão, nós estamos simplesmente utilizando a lógica do racismo.
Nós reconhecemos aqueles que estão simplesmente reivindicando a reforma do sistema policial e a reforma do sistema carcerário, reter se nessas estruturas racistas ao mesmo tempo em que estão fingindo abordar os problemas do racismo, é por isso que dizemos não ao feminismo carcerário e sim ao feminismo abolicionista.

É por isso que nós convocamos essa solidariedade para além de fronteiras nacionais e nós enfatizamos que o feminismo radical negro descolonial reconhece as nossas profundas conexões mesmo à medida que reconhecemos também as suas contradições.

Então, afirmamos que a luta para o acesso a água em comunidade quilombolas, no quilombo Rio dos Macacos, e essa comunidade está sendo assegurada de forma a colocar o rotulo de todos os membros dessa comunidade como terroristas, e eu tenho aqui em minhas mãos um apelo que vem da comunidade do Rio dos Macacos, em termo dos direitos humanos, do acesso à terra e a água. E eu vou ler essa carta aqui imediatamente, após o encerramento desse evento, eu lerei essa carta.
Mas o que eu gostaria de dizer sobre as lutas que estão ocorrendo dentro dessa comunidade, estão ligadas as reivindicações para a proteção da água em populações indígenas, por populações indígenas reivindicando proteção do veneno trazido pelos dutos de petróleo.

E vocês podem estar familiarizadas com a situação da reserva Standing Rocks em Sioux e essas lutas estão ligadas também aos esforços que ocorrem em Flent Michigan para expor o envenenamento da água nas comunidades negras e essa luta também está ligada à luta na qual as comunidades palestinas estão engajadas para defender seus reservatórios de água que são constantemente alvo das forças militares de Israel.

Então, somente através da solidariedade e da luta, nós poderemos preservar o nosso acesso a água. Eu gostaria de enfatizar a minha felicidade de estar aqui comemorando com vocês o dia dedicado a mulher afro-caribenha e latina porque as mulheres negras representam a possibilidade da esperança do futuro.

Carol Correia é Feminista, Ativista anti-prostituição, Formada em Direito (pós em Constitucional e Processo Penal) e Tradutora.